
Atravesso uma fase de má sorte desde que deixei a casa de meus pais e segui o conselho que Lobo Larsen ofereceu ao novato Hump. Desejava caminhar com minhas próprias pernas, cavar a vida se por um acaso me visse só. Pois foi o que fiz, ou melhor, busquei fazer. Periodista graduado, decidi mergulhar na correnteza do mercado profissional da cidade grande. E encontrei algo semelhante ao que conheci no rio Iguaçu, no trecho logo após as cataratas. Ali as águas são aparentemente tranqüilas na superfície, mas têm grande turbulência centímetros abaixo da lâmina. Na Capital, por analogia, não há grandes mudanças no cenário da mídia, no entanto, quem entra precisa ficar longe dos rodamoinhos.
Logo no primeiro mês, uma noite de decisão futebolística se estendeu até o fim de uma caixa de cervejas em latinhas. Passava da primeira hora da manhã quando alguém puxou o violão e começou a ensaiar os solos de guitarra. Não deu outra. A síndica em pessoa e trajes de dormir apareceu na porta do apartamento para reclamar. Logo ela, a criatura mais inútil que colecionava vasos de violetas sobre o balcão da cozinha. Pois não passaria muito tempo e, novamente, ela precisaria interromper a melodia. Dessa vez não se deu ao trabalho de descer. Da própria janela da sala solicitou o silêncio. É muito azar morar no apartamento embaixo da síndica! Afinal, não adiantava discutir porque ela sempre estava por cima.
Todas as manhãs eu acordava às 7h30min e a síndica meia hora antes. Como eu sabia? Por complexo de nanismo, penso eu, ela dormia de salto alto e acordava sapateando sobre minha cabeça. Toc! Toc! Toc! Passos curtinhos que suas curtas pernas permitiam. Embriagado, eu, a imaginava embriagada na canção do Raulzito. E num acorde sustenido ela iria se escancarar. Enquanto isso não acontecia e para não ser mais acordado pelo galopar inoportuno, decidi acordar meia hora mais cedo. Assim, dormia sem fazer barulho e levantava antes que o barulho se fizesse.
Mas, voltamos ao caso profissional.
No mercado de trabalho há pessoas que estão por cima e há aquelas que acham que estão por cima. Conheço muito bem o segundo tipo. Minha renda inicial, aqui na Capital, foi garantida por um empreiteiro da construção civil que decidiu apostar na idéia de um casal de irmãos. Ela, esforçada e metódica. Já ele, preguiçoso e garganteador. Bom de papo o tal rapaz me levou na conversa facilmente prometendo um escritório com computadores novos para o início do trabalho. Na realidade, o escritório não passava da sala do apartamento sem mobília alugado com o dinheiro do tal empreiteiro serrano.
Larguei tudo para dedicar meus esforços na campanha política de um jovem e já decadente deputado. Afinal, entre suas damas de companhia havia um assessor direto que já foi extinto e um corneteiro oficial que havia ficado velho e gordo antes mesmo de envelhecer. Para esse trabalho, fui contratado pelo matusalém da fotografia brasileira que, como não poderia deixar de ser, também achava que estava por cima. Ele até lembrava o ímpeto do Lobo Larsen, porém, era só focalizar mais de perto e constatar que a única semelhança entre os dois estava na embarcação. Ambos comandavam a “Ghost”.
Decidi, então, abandonar o periodismo. Ou seria, o preciosismo?
Se for para caminhar com as próprias pernas, concluí, quero que seja em uma lida braçal. Preciso sentir que há valor na força das minhas mãos. Por sugestão de um amigo e indicação de um conhecido acabei empregado em uma peixaria do Mercado Público, a banca do Conde. O salário não era dos melhores, mas pagavam sem falhas e quinzenalmente. Minha obrigação era descarregar os caminhões cheios de peixes que chegavam ainda na madrugada. Com botas e um avental eu iniciava às 4h e só parava às 9h. O cheiro forte do peixe que congela nos barcos ainda em alto mar e descongela nos caminhões ainda na auto-estrada nunca me puseram empecilhos. O problema foi o apelido que ganhei logo ao chegar.
Como não havia um calçado adequado ao meu pé recebi provisoriamente um par três números maiores. O nervosismo da primeira manhã de trabalho, o piso metálico do baú frigorífico encharcado pelo desgelo e um passo em falso me levaram ao chão. “Mas como sou azarado!”, lamentei. “Azarado”, repetiram os espectadores em gargalhadas. Se estivesse no navio de Lobo Larsen, meu apelido talvez soasse melhor, em inglês. Mas ali, na banca de peixes, passei a ser conhecido por Azarado mesmo. Até tentei levar para o lado bom, afirmando que o Azarado iria Azarar todas as meninas que passassem por ali. Entretanto, quando se é um exército de um homem só não há muito que fazer.
O tempo foi passando e fui me tornando um dos melhores descarregadores daquele condado, como era conhecida a cercania da banca do Conde. Conhecia os tipos de peixes e a época propícia para a sua pesca. Era especialista em descarregar cargas vivas e abastecer os congeladores da peixaria. Quando faltava algum vendedor também me chamavam para fazer uma hora-extra e embolsar uns trocados. O Azarado estava com vento a favor, mas o apelido não desapareceu. “Chamem o Azarado que hoje o Dimaiami faltou”, berrava o Conde sempre que seu vendedor mais experiente resolvia não aparecer.
Dimaiami tinha uma pequena padaria que a esposa gerenciava. Ele acordava cedo, antes das 4h, colocava o pão para assar e às 8h assumia a peixaria. O apelido surgiu quando ele foi pedir emprego na banca do Conde e ao ser perguntado de onde era, respondeu: de Miami. O problema é que Dimaiami gostava muito de futebol e quando resolvia ir ao estádio nunca voltava cedo para casa e isso refletia na rotina do dia seguinte. A mulher tinha que preparar a massa e colocar no forno. E só me restava assumir seu posto na venda de peixes.
Certo dia, Dimaiami decidiu deixar a peixaria e se dedicar em período integral ao ofício de padeiro. Então, fui promovido. Um salário fixo acrescido de uma porcentagem sobre as vendas. Nada mal. Afinal, não havia um período melhor que o outro. Se no inverno havia o consumo de tainha, o verão era impulsionado pelo consumo de ostras, ser vivo afrodisíaco. Mas afrodisíaco mesmo, dizem, são as ovas da tainha. Uma tripa amarelada de fêmeas fecundas e muito apreciada para o preparo de farofas ou simplesmente fritas, como acompanhamento para um copo de cerveja.
Foi justamente o interesse pela especiaria que um dia conheci a mulher mais linda que já havia encontrado naquele condado. Alta, cintura fina e quadril largo. Gestos delicados. Pele bronzeada pelo sol contrastando com os cabelos longos, loiros e soltos. Enfim, mulher do tipo que marmanjo olha e não faz nenhum esforço para disfarçar que está olhando. Pois bem, ela se aproxima, caminhando decididamente. Perfume adocicado. Olha para mim e diz: Azarado, uma ova!
Texto e Foto: Elton555